Da quarentena

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Estamos com o cara há quatro dias presos em casa. A mãe também está de home-office. Os primeiros dias foram de novidade. Falar de prevenção para alguém com cinco anos de idade exige didática, esforço e dedicação, mas ele está começando a compreender a gravidade da situação (melhor que muitos adultos).

A presença da mãe muda a rotina da casa. Difícil explicar que estamos trabalhando e não podemos brincar com peças de Lego, que a televisão está muito alta, que não consigo desenhar um Power Rangers agora.

Começamos a organizar os novos horários. Estabelecer listas de tarefas, de atividades. Ele ficou responsável pela comida dos gatos e por regar as plantas. E ajudar com a louça suja. Ontem ele assistiu um filme. Leu livros. Desenhou. Jogou bola. Se entediou. Antes de dormir, jogamos jogos de tabuleiro. A escola já começou a mandar atividades para ele. João é privilegiado: tem acesso a bens culturais que poucos tem em casa.

De noite teve panelaço contra o canalha irresponsável que ocupa a presidência do nosso triste país. Ele gritou com gosto. Estamos há quatro dias em casa. Fala-se de quarenta. De meses. Serão dias muito duros.  Para nós, para o cara, para o país, para o mundo. Será um período de desafios, de aprendizado, de dificuldades, de privações, de mudanças, de descobertas. Um dia de cada vez.

Da herança – dois

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Meu pai nunca ouviu o neto João roncando baixinho.
Mas ele se emocionava de vê-lo pela câmera do celular, na hora do almoço, quando eu fazia uma ligação de vídeo, para matar a saudade.
Seu Paulo sempre perguntava o que tinha no prato. João respondia, ingrediente por ingrediente, respeitava a voz grossa e o bigodão do avô: arroz, feijão preto (moramos já fazem alguns anos no Rio de Janeiro), brócolis (seu legume favorito), frango ou às vezes carne de boi e em alguns dias uma farofa, ou então tomate picado, uma cenoura picada, um milho verde. E dizia se estava bom. Se estava gostoso.
Acho que o avô se orgulhava, não só do prato do neto, mas por ter sido feito e cozinhado pelo filho.
Bom de garfo, pouquíssimas vezes chegava perto da cozinha. Por comodidade? Preguiça? Por causa da minha mãe? Nunca me falou.
Sou eu quem cozinha em casa.
Neste momento João ronca ao meu lado, mal dá para ouvir. Meu pai roncava muito. Muito e muito alto. Herdei isso dele.

Mas hoje não ronco mais, uso um aparelho que manda ar pressurizado para meu nariz.
Não é só para evitar o ronco. Eu tinha apnéia, acordava muito, no meio da noite. Ficava cansado durante o dia. Como meu pai.

Fingia que não, sempre fiz de tudo para não pegar no sono, como ele, meu pai. Para ele bastava um sofá, uma cadeira, uma televisão ligada.

Queria que meu pai tivesse utilizado um aparelho desses. Talvez ele tivesse parado de roncar. Talvez, com mais disposição, ele pudesse ter ouvido o João roncar, ainda que baixinho. Como ele está roncando agora.

Torço para que seja só um ronco infantil, que passe quando ele crescer. Que não seja uma herança do pai. Uma herança do avô da voz grossa. Que roncava muito e tinha apnéia.
Ah, mas a boa herança é que o João também é bom de garfo. E vou ensinar o cara a cozinhar.

Daquilo que a gente carrega

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Desci para jogar futebol com o cara hoje de manhã. Ele, totalmente uniformizado, com chuteira, meião, shorts pretos e a camisa do São Paulo Futebol Clube, time que herdei do meu pai, que por sua vez, herdou do meu avô Paulo.

Além do time, meu pai, Junior, herdou o nome, que eu também carrego (sim, sou Pedro Paulo).

Aqui no Rio, João também torce para o Fluminense, time do outro avô, mas sabe que o tricolor paulista era o time do avô do bigodão e da barriga de bola de basquete.

João joga mal, como eu e como o avô paulistano também jogava. Em compensação, está desenhando cada vez melhor. Puxou o pai. Puxou o avô.

Aquele que ele vai sempre lembrar como o do bigodão. Que torcia para o São Paulo e tinha a barriga de bola de basquete.

Do calendário promocional

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E no dia de hoje eu ganho dois presentes do João… uma camiseta com tema de super-herói (sim, com quase 50 anos, graças ao cara, vou desfilar com o Batman, a Mulher-maravilha, o Super-homem e seus colegas no peito), e um desenho feito por ele: – papai, você é o da esquerda. Sou o outro. Sim. Foi um bom dia.

Do nascer

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Quando do nascimento do João, disse já, várias vezes, que nasceu junto o pai.

Mas sejamos justos: a mãe nasceu primeiro.

Com o bichinho crescendo nove meses, quarenta semanas na barriga, o parto, o peito, o colo, o toque, a voz, o amor incondicional, tudo, com toda razão e justiça faz a gente assumir, humildemente, nosso papel secundário.

Nasci pai. Mas sorte do João que já tinha, mesmo antes de nascer, a Renata. Mãe. A mãe.

Que merece tudo neste domingo. Todo meu amor. E principalmente, todo o amor do cara.

Do futuro. Porque ele sempre vem.

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– Papai, quando eu crescer, vou ser cientista. Vou construir engenhocas para ajudar as pessoas.

Nesses tempos sombrios que vivemos, ao ouvir o cara dizer isso, imediatamente o cisco que teima em morar no meu olho deu o ar da graça. Abracei ele forte, que não entendeu porque eu estava chorando.

Um alento e uma certeza. Com o João, com a geração dele, podemos ter esperança. Com eles, temos a garantia do futuro. O futuro que sempre vem. Aliás, já está aqui.

 

 

 

De ser pai e participar

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Fui convidado pela escola do cara para ir desenhar com a turma. Eles já me “conheciam”: ano passado, na ciranda dos livros da turma, dois deles eram meus – Urso Alfredo e o Mistério na Neve e Cadu e o Mundo que não era… eu era o pai que tinha desenhado o urso, a morsa, a rena, o menino sonhador, o astronauta, o balão. Mas não teve jeito, cheguei lá intimidado. Responsabilidade. Tinha que fazer bonito. João foi me receber na portaria, me levou para classe, todo orgulhoso. Sentou do meu lado na roda. Me apresentou. Me deu força. Mostrou meus livros. Estava feliz. Aí relaxei. Conversei com a molecada. Sentei no chão. Desenhei um gigante barrigudo com meleca no nariz. Eles riram. Recebi abraços, sorrisos. Carinho de todos. Depois eles desenharam o gigante deles. Cada um o seu. Olhei e comentei, um por um. Alguns gigantes eram barrigudos, outros tinham meleca no nariz. Acho que eles gostaram. Eu gostei. Obrigado, turma 4D. Obrigado, João!