Daquilo que a gente carrega

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Desci para jogar futebol com o cara hoje de manhã. Ele, totalmente uniformizado, com chuteira, meião, shorts pretos e a camisa do São Paulo Futebol Clube, time que herdei do meu pai, que por sua vez, herdou do meu avô Paulo.

Além do time, meu pai, Junior, herdou o nome, que eu também carrego (sim, sou Pedro Paulo).

Aqui no Rio, João também torce para o Fluminense, time do outro avô, mas sabe que o tricolor paulista era o time do avô do bigodão e da barriga de bola de basquete.

João joga mal, como eu e como o avô paulistano também jogava. Em compensação, está desenhando cada vez melhor. Puxou o pai. Puxou o avô.

Aquele que ele vai sempre lembrar como o do bigodão. Que torcia para o São Paulo e tinha a barriga de bola de basquete.

Do calendário promocional

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E no dia de hoje eu ganho dois presentes do João… uma camiseta com tema de super-herói (sim, com quase 50 anos, graças ao cara, vou desfilar com o Batman, a Mulher-maravilha, o Super-homem e seus colegas no peito), e um desenho feito por ele: – papai, você é o da esquerda. Sou o outro. Sim. Foi um bom dia.

Do nascer

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Quando do nascimento do João, disse já, várias vezes, que nasceu junto o pai.

Mas sejamos justos: a mãe nasceu primeiro.

Com o bichinho crescendo nove meses, quarenta semanas na barriga, o parto, o peito, o colo, o toque, a voz, o amor incondicional, tudo, com toda razão e justiça faz a gente assumir, humildemente, nosso papel secundário.

Nasci pai. Mas sorte do João que já tinha, mesmo antes de nascer, a Renata. Mãe. A mãe.

Que merece tudo neste domingo. Todo meu amor. E principalmente, todo o amor do cara.

Do futuro. Porque ele sempre vem.

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– Papai, quando eu crescer, vou ser cientista. Vou construir engenhocas para ajudar as pessoas.

Nesses tempos sombrios que vivemos, ao ouvir o cara dizer isso, imediatamente o cisco que teima em morar no meu olho deu o ar da graça. Abracei ele forte, que não entendeu porque eu estava chorando.

Um alento e uma certeza. Com o João, com a geração dele, podemos ter esperança. Com eles, temos a garantia do futuro. O futuro que sempre vem. Aliás, já está aqui.

 

 

 

De ser pai e participar

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Fui convidado pela escola do cara para ir desenhar com a turma. Eles já me “conheciam”: ano passado, na ciranda dos livros da turma, dois deles eram meus – Urso Alfredo e o Mistério na Neve e Cadu e o Mundo que não era… eu era o pai que tinha desenhado o urso, a morsa, a rena, o menino sonhador, o astronauta, o balão. Mas não teve jeito, cheguei lá intimidado. Responsabilidade. Tinha que fazer bonito. João foi me receber na portaria, me levou para classe, todo orgulhoso. Sentou do meu lado na roda. Me apresentou. Me deu força. Mostrou meus livros. Estava feliz. Aí relaxei. Conversei com a molecada. Sentei no chão. Desenhei um gigante barrigudo com meleca no nariz. Eles riram. Recebi abraços, sorrisos. Carinho de todos. Depois eles desenharam o gigante deles. Cada um o seu. Olhei e comentei, um por um. Alguns gigantes eram barrigudos, outros tinham meleca no nariz. Acho que eles gostaram. Eu gostei. Obrigado, turma 4D. Obrigado, João!

Do tino comercial

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Diálogo matinal:

– Papai, quando eu crescer eu vou abrir uma loja.

– Legal meu filho… (na verdade estranhei um pouco, ninguém na família tem muito tino comercial) e vai ter o que na sua loja?

– Ah, vai ter de tudo: comidas, roupas, brinquedos, televisão, computadores, todas as coisas que as pessoas querem. E elas vão poder pegar tudo que quiserem sem pagar nada. Vai ser tudo grátis.

O cisco, aquele que mora no meu olho, apareceu imediatamente, para confirmar que devemos estar fazendo a coisa certa.

Do presente (por Renata)

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Numa de suas primeiras visitas ao Rio, ainda pequeno, João me perguntou o que era aquilo. Apontava muito curioso para algo que nunca tinha visto em São Paulo. Era uma montanha. A Pedra da Gávea. O episódio me fez refletir sobre como e onde gostaria que meu filho vivesse sua infância. Nesse momento, resolvi voltar pra casa. Assim que chegamos, dei de presente para ele a tal montanha. “Filho, ela é sua.” Ai de quem diga para o menino que não é. Fica bravo, faz bico. “Minha mãe me deu”. Acho que é minha vista favorita da cidade. E depois do desespero de ter que mudar, da correria e da loucura, eis que ela está lá. Linda da janela do quarto. Valeu a pena a mudança. “Filho, olha quem vai nos dar bom dia todos os dias!”.