Das pessoas (ou o diário da pandemia para você ler quando for mais velho).

20200329_181730

Hoje, décimo-quarto dia de quarentena e você falou que está com medo. Com todas as letras. Do alto dos seus quase seis anos de idade, falou que está com medo do coronavirus. Medo do que está acontecendo. Medo do que pode acontecer.

Nós estamos tentando te proteger, meu filho. Estamos ao seu lado. Simulando uma coragem, uma força, uma motivação, simulando certezas que também não temos. Também estamos com medo. Também estamos com medo do que está acontecendo. Do que pode acontecer.

As outras pessoas também estão com medo.

O medo é humano.

As pessoas estão se revelando nesses tempos. Pessoas comuns reagindo. Reações positivas. Gente querendo ajudar gente. Proteger gente.

Cozinheiros, donos de restaurantes dando comida para quem tem fome. Pessoas doando tempo, trabalho e dinheiro em prol do próximo. Em prol do distante.

Pessoas na linha de frente combatendo a pandemia: cientistas, pesquisadores, médicos, enfermeiros, cuidadores.

Pessoas garantindo os serviços básicos: comida, saneamento, água.

Pessoas fazendo o que podem, o que sabem.

Professores dando aulas, amigos lendo histórias, declamando poesias, tocando músicas, doando livros, liberando filmes, músicas, obras de arte, compartilhando conhecimento. Compartilhando carinho. Afeto. Pessoas procurando ajudar outras pessoas.

Amigos fazendo campanhas, dividindo, ajudando, contribuindo, pessoas se movendo, distribuindo informações sérias, tentando convencer pessoas a ficarem em casa.

Você já entendeu que ficar em casa nesses dias é fundamental para salvar vidas. Ficar em casa significa ajudar outras pessoas. Evitar que o próximo, que o distante fique doente. Por mais que o isolamento seja ruim. Seja chato. Por mais que você sinta falta do mundo lá fora.

Mas pessoas também se desesperam no medo. Ficam inseguras. Se desesperam. Precisam de ajuda.

Mas pessoas também se revelam escrotas nas crises. Se revelam vis. Velhos publicitários escrotos, empresários escrotos, padeiros escrotos, vendedores de sanduíches escrotos. Banqueiros escrotos (uma redundância). Políticos escrotos (com o atual governo, outra redundância). Políticos venais que não enxergam pessoas, gente ruim, que só vê o próprio umbigo.

Gente ruim que só dissemina ódio. O monstro que ocupa a presidência, seu velho conhecido, você já vaiou muito esse verme… sim esse para quem você hoje bate panelas diariamente.

Pessoas que preferem números a pessoas. Especialmente o número nos seus extratos bancários.

Pessoas que defendem números a pessoas. Pessoas que defendem que pessoas sejam sacrificadas pelos números. Que saem em carreata em prol de números.
Números de extratos bancários que valem mais do que algumas pessoas.

Pessoas imperdoáveis.

Tenho medo dessas pessoas.
Mas prometo te defender, meu filho. Não acredite nessas pessoas que preferem os números. Não acredite nessas pessoas que preferem o ódio.

Acredite na poesia, meu filho. Acredite na arte, meu filho.
Acredite na ciência, meu filho.
Acredite nas pessoas, meu filho. Nas pessoas que acreditam em pessoas. Nas pessoas que defendem pessoas. Pessoas como você.

E o medo vai passar.

Da quarentena

IMG_20200319_122427_829

Estamos com o cara há quatro dias presos em casa. A mãe também está de home-office. Os primeiros dias foram de novidade. Falar de prevenção para alguém com cinco anos de idade exige didática, esforço e dedicação, mas ele está começando a compreender a gravidade da situação (melhor que muitos adultos).

A presença da mãe muda a rotina da casa. Difícil explicar que estamos trabalhando e não podemos brincar com peças de Lego, que a televisão está muito alta, que não consigo desenhar um Power Rangers agora.

Começamos a organizar os novos horários. Estabelecer listas de tarefas, de atividades. Ele ficou responsável pela comida dos gatos e por regar as plantas. E ajudar com a louça suja. Ontem ele assistiu um filme. Leu livros. Desenhou. Jogou bola. Se entediou. Antes de dormir, jogamos jogos de tabuleiro. A escola já começou a mandar atividades para ele. João é privilegiado: tem acesso a bens culturais que poucos tem em casa.

De noite teve panelaço contra o canalha irresponsável que ocupa a presidência do nosso triste país. Ele gritou com gosto. Estamos há quatro dias em casa. Fala-se de quarenta. De meses. Serão dias muito duros.  Para nós, para o cara, para o país, para o mundo. Será um período de desafios, de aprendizado, de dificuldades, de privações, de mudanças, de descobertas. Um dia de cada vez.

Da herança – dois

20200219_203532

 

Meu pai nunca ouviu o neto João roncando baixinho.
Mas ele se emocionava de vê-lo pela câmera do celular, na hora do almoço, quando eu fazia uma ligação de vídeo, para matar a saudade.
Seu Paulo sempre perguntava o que tinha no prato. João respondia, ingrediente por ingrediente, respeitava a voz grossa e o bigodão do avô: arroz, feijão preto (moramos já fazem alguns anos no Rio de Janeiro), brócolis (seu legume favorito), frango ou às vezes carne de boi e em alguns dias uma farofa, ou então tomate picado, uma cenoura picada, um milho verde. E dizia se estava bom. Se estava gostoso.
Acho que o avô se orgulhava, não só do prato do neto, mas por ter sido feito e cozinhado pelo filho.
Bom de garfo, pouquíssimas vezes chegava perto da cozinha. Por comodidade? Preguiça? Por causa da minha mãe? Nunca me falou.
Sou eu quem cozinha em casa.
Neste momento João ronca ao meu lado, mal dá para ouvir. Meu pai roncava muito. Muito e muito alto. Herdei isso dele.

Mas hoje não ronco mais, uso um aparelho que manda ar pressurizado para meu nariz.
Não é só para evitar o ronco. Eu tinha apnéia, acordava muito, no meio da noite. Ficava cansado durante o dia. Como meu pai.

Fingia que não, sempre fiz de tudo para não pegar no sono, como ele, meu pai. Para ele bastava um sofá, uma cadeira, uma televisão ligada.

Queria que meu pai tivesse utilizado um aparelho desses. Talvez ele tivesse parado de roncar. Talvez, com mais disposição, ele pudesse ter ouvido o João roncar, ainda que baixinho. Como ele está roncando agora.

Torço para que seja só um ronco infantil, que passe quando ele crescer. Que não seja uma herança do pai. Uma herança do avô da voz grossa. Que roncava muito e tinha apnéia.
Ah, mas a boa herança é que o João também é bom de garfo. E vou ensinar o cara a cozinhar.

Daquilo que a gente carrega

20191117_142318

Desci para jogar futebol com o cara hoje de manhã. Ele, totalmente uniformizado, com chuteira, meião, shorts pretos e a camisa do São Paulo Futebol Clube, time que herdei do meu pai, que por sua vez, herdou do meu avô Paulo.

Além do time, meu pai, Junior, herdou o nome, que eu também carrego (sim, sou Pedro Paulo).

Aqui no Rio, João também torce para o Fluminense, time do outro avô, mas sabe que o tricolor paulista era o time do avô do bigodão e da barriga de bola de basquete.

João joga mal, como eu e como o avô paulistano também jogava. Em compensação, está desenhando cada vez melhor. Puxou o pai. Puxou o avô.

Aquele que ele vai sempre lembrar como o do bigodão. Que torcia para o São Paulo e tinha a barriga de bola de basquete.

Do calendário promocional

67844790_10219952921562987_9039837724835577856_n

E no dia de hoje eu ganho dois presentes do João… uma camiseta com tema de super-herói (sim, com quase 50 anos, graças ao cara, vou desfilar com o Batman, a Mulher-maravilha, o Super-homem e seus colegas no peito), e um desenho feito por ele: – papai, você é o da esquerda. Sou o outro. Sim. Foi um bom dia.

Do nascer

IMG_6948

Quando do nascimento do João, disse já, várias vezes, que nasceu junto o pai.

Mas sejamos justos: a mãe nasceu primeiro.

Com o bichinho crescendo nove meses, quarenta semanas na barriga, o parto, o peito, o colo, o toque, a voz, o amor incondicional, tudo, com toda razão e justiça faz a gente assumir, humildemente, nosso papel secundário.

Nasci pai. Mas sorte do João que já tinha, mesmo antes de nascer, a Renata. Mãe. A mãe.

Que merece tudo neste domingo. Todo meu amor. E principalmente, todo o amor do cara.

Do futuro. Porque ele sempre vem.

20190504_144957

– Papai, quando eu crescer, vou ser cientista. Vou construir engenhocas para ajudar as pessoas.

Nesses tempos sombrios que vivemos, ao ouvir o cara dizer isso, imediatamente o cisco que teima em morar no meu olho deu o ar da graça. Abracei ele forte, que não entendeu porque eu estava chorando.

Um alento e uma certeza. Com o João, com a geração dele, podemos ter esperança. Com eles, temos a garantia do futuro. O futuro que sempre vem. Aliás, já está aqui.

 

 

 

De ser pai e participar

IMG_8873

Fui convidado pela escola do cara para ir desenhar com a turma. Eles já me “conheciam”: ano passado, na ciranda dos livros da turma, dois deles eram meus – Urso Alfredo e o Mistério na Neve e Cadu e o Mundo que não era… eu era o pai que tinha desenhado o urso, a morsa, a rena, o menino sonhador, o astronauta, o balão. Mas não teve jeito, cheguei lá intimidado. Responsabilidade. Tinha que fazer bonito. João foi me receber na portaria, me levou para classe, todo orgulhoso. Sentou do meu lado na roda. Me apresentou. Me deu força. Mostrou meus livros. Estava feliz. Aí relaxei. Conversei com a molecada. Sentei no chão. Desenhei um gigante barrigudo com meleca no nariz. Eles riram. Recebi abraços, sorrisos. Carinho de todos. Depois eles desenharam o gigante deles. Cada um o seu. Olhei e comentei, um por um. Alguns gigantes eram barrigudos, outros tinham meleca no nariz. Acho que eles gostaram. Eu gostei. Obrigado, turma 4D. Obrigado, João!

Do tino comercial

FullSizeRender

Diálogo matinal:

– Papai, quando eu crescer eu vou abrir uma loja.

– Legal meu filho… (na verdade estranhei um pouco, ninguém na família tem muito tino comercial) e vai ter o que na sua loja?

– Ah, vai ter de tudo: comidas, roupas, brinquedos, televisão, computadores, todas as coisas que as pessoas querem. E elas vão poder pegar tudo que quiserem sem pagar nada. Vai ser tudo grátis.

O cisco, aquele que mora no meu olho, apareceu imediatamente, para confirmar que devemos estar fazendo a coisa certa.